A fama de Viçosa

Não sou nem viçosense nem mineiro. Sou de Campos, no norte do Estado do Rio, a penúltima cidade banhada pelo rio Paraíba. Eu era muito bairrista. Fui ordenado pastor presbiteriano nesta cidade e preparado para exercer o meu ministério nela. Mas houve uma virada impressionante logo após a minha formatura em teologia no Rio de Janeiro e, em janeiro de 1955, há sessenta anos, vim para Minas com o propósito de organizar uma igreja presbiteriana em Ubá, onde permaneci por cinco anos. Em janeiro de 1960, fui transferido para Viçosa com o mesmo propósito. Em poucos anos, a minha paixão por Campos foi substituída pela paixão por Viçosa. É por esta razão que eu também estou espantado com a quantidade enorme de assassinatos que estão acontecendo na cidade.

Eu me gabo de Viçosa por aí afora. Já passou o tempo de a cidade se vangloriar unicamente de ser a terra natal do ex-presidente Artur da Silva Bernardes (1875 – 1955), que governou o país de novembro de 1922 a novembro de 1926 (como campista, eu fazia questão de dizer que o presidente Nilo Peçanha havia nascido em Campos…). Temos uma das mais reconhecidas universidades federais do Brasil, especialmente na área agrária. A UFV foi a primeira universidade no país a implantar os cursos de economia doméstica e engenharia florestal e a criar a famosa Semana do Fazendeiro. Temos o premiado Colégio Universitário (Coluni) e três fundações modelares, como a Facev, a Fratevi e a Funarbe (que produz o melhor doce de leite do país). Por muitos anos tivemos o Colégio Viçosa, o mais prestigioso da região. Mesmo sendo uma cidade pequena, com uma população de apenas 80 mil habitantes, abrigamos pelo menos mais outras três universidades. Temos o Centro Evangélico de Missões (CEM), escola que forma missionários biocupacionais e que oferece pós-graduação em missiologia (pelo menos 100 ex-alunos são hoje missionários em 32 países em todos os continentes). Temos o Centro de Produções Técnicas (CPT), que fornece dezenas de cursos em vídeos para todo o país. Além da Editora Universitária, temos a Editora Ultimato, que publica a revista de mesmo nome (talvez o único periódico que atinge o público protestante e o público católico em todos os estados brasileiros) e livros de autores nacionais e estrangeiros, como C. S. Lewis, John Stott e N. T. Wright.

Temos o SEARA, possivelmente um dos maiores encontros católicos carismáticos do Brasil. Temos fábricas de cosméticos que saem da modesta Viçosa para todos os cantos do país.

Eu me sentia todo orgulhoso por uma coisa muito simples: o fato de os carros pararem espontaneamente para os pedestres atravessarem a rua com segurança, antes da implantação dos semáforos.

E, agora, devo contar a todo o mundo que de janeiro ao presente momento, de acordo com levantamento do Conselho Municipal de Juventude (CMJ) de Viçosa, dez pessoas foram mortas nesta cidade universitária cheia de jovens? Devo negar a notícia de um assassinato recente que vitimou um jovem de 17 anos, publicada em jornais de grande circulação, como Folha de São PauloEstado de MinasHoje em Dia e no G1? Devo insistir que o melhor doce de leite do Brasil é fabricado em Viçosa?
Prefiro esperar mais um pouco. Esperar para dar uma notícia alvissareira em algum tempo mais tarde. Mais importante do que Artur Bernardes, mais importante do que a UFV, mais importante do que a Univiçosa, mais importante do que o CPT ou o CEM. A notícia de uma revolução de ordem religiosa na cidade de Viçosa, operada sobrenaturalmente pela misericórdia de Deus e pela ação misteriosa do Espírito Santo. Uma revolução que diminua o número de dependentes químicos, o número de pessoas envolvidas no tráfico de drogas, o número de estudantes que se embriagam nos fins de semana, o número de pessoas que, de algum modo, são cúmplices velados ou não dessas coisas, o número de viçosenses anestesiados que nada veem nem derramam uma lágrima sequer, e, claro, o número de assassinos frios.
Eu sou um esperançoso. Se Nínive era uma cidade tão cheia de violência a ponto de quase ser destruída, e teve a sua história mudada (Jonas 3.5), por que Viçosa não pode experimentar algo parecido?
Pr. Elben César, editor da revista Ultimato
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