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Tempo para tudo – chorar e rir

Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu: Tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar. (Ecles.3.1 e 4)

Sentados em discreto sofá na ante sala de uma UTI, estávamos meu pai e eu, esforçando-nos para ter aquela que seria nossa última conversa. A mesma revelou-se objetiva, franca e com longas pausas. Enquanto aguardávamos o enfermeiro, preferimos olhar para o nada, às vezes para a parede clássica em branco gelo. Descruzávamos os olhares para não denunciar o óbvio: para papai, era tempo de guardar a fé, tempo que Deus permite que ela, a fé, seja guardada inteiramente para nós. Deixamos o silêncio falar em nosso lugar.

Meu pai, um homem elegante, ainda que com respiração sofrida, se mantinha sentado de pernas cruzadas, à moda antiga, como sempre o fazia, cabelos despropositados lembrando Castro Alves (o poeta), rompeu o silêncio com uma frase entrecortada que, teimosamente, permanece em minha memória: – “filho, estou sofrendo muito”.

Tentei ajudar, amenizar, mas a clareza do momento não me deixava dúvidas, estava chegando o tempo de chorar, chorar aquele que me cuidou, que me sustentou e me proveu. Na verdade eu chorava a seco, e o fazia para não imprimir nada mais que pudesse intensificar a dor nas emoções de meu amado pai.

Naquela tarde acinzentada eu estava com o famoso “nó na garganta”. Fiquei ali esperando, esperei até que um gentil enfermeiro o levou, fechando uma porta entre nós. Demorei-me um pouco mais na sala do encontro, e também do desencontro. Sabia que não nos falaríamos mais. Precisava organizar os pensamentos e aceitar que há tempo para tudo nessa vida passageira. Sim, há tempo para tudo nesta vida, conto ligeiro! Chorar e rir, prantear e dançar.

A vida e morte de meu pai ajudou-me compreender que todos nós, sem exceção, experimentaremos as estações de choro que parecerão não ter mais fim. Estações de alegrias que esperamos não acabem jamais.

Naquela tarde carreguei outra certeza: de que nossas experiências produzem efeitos colaterais. A exemplo de uma onda do mar, vai atingindo a todos que estão a frente, afetando relacionamentos, deixando profundas marcas pessoais e familiares. Minha família precisou alterar sua configuração para seguir em frente.

O tempo parece ter um humor bipolar e o lança sobre todos, em todas as épocas. Transitar entre alegria e tristeza não é fácil, e quando nos encontramos em tempo de choro e pranto não raro pensamos que jamais conseguiremos voltar a sorrir. Dançar? Impensável. É comum ouvirmos: – o mundo acabou para mim. Realmente são falas em meio à dor e não devem ser entendidas como vitimização. Como voltar a sorrir após o tempo de choro? Como continuar sem o nosso patriarca? Creio firmemente que a resposta encontra-se nas palavras daquele que tem a “PALAVRA” das palavras:

  • “O Espírito do Soberano Senhor está sobre mim porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros… para consolar todos os que andam tristes, e dar a todos os que choram em Sião uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de pranto, e um manto de louvor em vez de espírito deprimido.” (Isaías 61:1-3).
  • “Depois do sofrimento de sua alma, ele verá a luz e ficará satisfeito” (Isaías 53:11a).

Aos poucos e gradativamente fui percebendo que a ausência de meu pai era cada vez menos dolorida. Percebia o amor de Deus cuidando e fazendo o que não podíamos, e ao mesmo tempo tinha claro que esse amor se revelava nos abraços amigos, ombros irmãos e na própria família.

Deus tem sua maravilhosa maneira de ser socorro bem presente na hora da angústia. Ele colocou em nosso coração o desejo pela eternidade, pois somente neste tempo – a eternidade – não haverá mais dor, pranto, somente alegrias eternas (Ap 21).

Hoje estou aqui sem tristezas e sem o tal “nó na garganta”. Respiro feliz. Eu sei, e estou bem certo, que foi Jesus que levou sobre si todas as minhas dores para que eu consiga alegremente relembrar que, em uma bela manhã de verão, sentado no colo de meu pai, aguardava ele descascar, calmamente, uma belíssima e doce manga. Dividimos em tempo de paz, pai e filho, o sabor da última manga daquela estação.

 

Pr. Ismael Narcizo é responsável pela IAP em Douradina (MS).

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