É possível perdoar uma traição?

Mesmo com o modernismo e o secularismo, “saber amar sem trair” ainda é o esperado nos relacionamentos

Ao me deparar com esta pergunta, achei oportuno começar por outra questão: Por que alguém trai seu cônjuge? Fiz esta indagação para algumas pessoas do meu relacionamento, cristãs ou sem religião, solteiras, casadas, homens ou mulheres, e julguei curiosas as respostas que obtive. Resumindo, elenco as seguintes: por encontrar em outra pessoa aquilo que seu cônjuge não tem; por dificuldades ou problemas enfrentados no relacionamento; por fraqueza; por vício pornográfico; por falta de convicção; por falta de princípios; por falta de amor.

Achei interessante o fato de ter recebido respostas de fraqueza e falta de amor vindas de pessoas que não tem uma religião, ou seja, o sentimento do amor é algo universal, não é necessário conhecimento teológico para se valorizar sua essência, até porque, vemos cristãos que conhecem na teoria o conceito do amor, mas cujas vidas andam bem distantes de uma vida de amor…

Para mim, traição é uma questão de fraqueza e falta de amor, acima de qualquer coisa. Se você está em um relacionamento, começa a sentir a tentação se aproximar e se entrega a ela, isto é fraqueza, problema de caráter…

A Bíblia deixa claro que o problema nos persegue desde a queda de Adão e Eva e, embora critiquemos tanto nossos antepassados, fazemos tal escolha quase sempre, ao cometermos pequenos erros no dia-a-dia, e tentamos nos justificar, mostrando porque agimos desta ou daquela maneira, findando por culpar outros por nossos erros.

Então, não é o que fizeram Adão e Eva?

Em Mateus 26, Jesus afirma: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca”.

Nosso caráter é fraco, somos fracos, nossa carne é fraca, somos exortados a alimentarmos nosso espírito, para que ele se fortaleça e vença as fraquezas da carne. É uma batalha que devemos travar por todos os dias de nossas vidas, minuto a minuto, nem sempre conseguindo vencer, seja na área sexual ou em outra qualquer.

Porém, Paulo nos alerta em 1 Coríntios 10:13: “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar”. Deus não nos deixa órfãos, se realmente o buscamos. Procurando agradá-lo constantemente, conseguiremos ver os escapes que ele coloca a cada instante em nossa vida e evitaremos cair em tentação.

Deus sugere um modelo para os casais, em Hebreus 13:4: “Venerado sejam, entre todo, o matrimônio e o leito sem mácula; porém, aos que se dão à prostituição, e aos adúlteros, Deus os julgará”.

Precisamos pensar bastante antes de assumir tão grande compromisso, como o do casamento, pois é diante de Deus que o fazemos e devemos mantê-lo sem manchas, sem máculas, puro e santo, como é o nosso Deus.

Não apenas perdoar, mas continuar o relacionamento

Claro que Deus conhece a dureza dos nossos corações, mas devemos cuidar e fazer o possível para trilhar os caminhos que Ele nos orienta a fazer. Afinal, seremos os primeiros beneficiados, pois Deus conhece aquilo que precisamos. Não me refiro à salvação, este departamento é exclusivo de Deus e não cabe a nós julgar quem será salvo ou não, só Ele conhece a sinceridade e profundidade dos nossos corações e intenções.

Voltando ao assunto da traição, minha resposta é direta: sim, é claro que é possível perdoar. Se não fosse assim, Jesus não nos daria como modelo de oração algo que inclui a seguinte afirmação: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mateus 6. 12).

Ao nos orientar sobre como devemos orar, Jesus sabia da dureza dos nossos corações e da maneira como julgamos o erro dos outros, sendo sempre compassivos com nossos próprios erros. Logo, se esperamos o perdão de Deus, devemos saber perdoar.

A traição é algo terrível. Uma pessoa traída se sente humilhada, desprezada, inútil, mal-amada. Para o psiquiatra e psicoterapeuta Luis Cruschinir, sobre a questão da infidelidade entre famosos: “Ideal mesmo ainda é saber amar sem trair. Toda essa comoção em torno da infidelidade entre os casais famosos só escancara que, apesar de uma liberdade aparentemente maior, o buraco é mais embaixo. Saber amar sem trair ainda é esperado nos dias atuais”.

Eduardo Borges administra o braço brasileiro do maior site de encontros extraconjugais do mundo, mas faz a seguinte afirmação: “Bom, sem fugir da pergunta: se for traído, vou passar um bom tempo refletindo. Se vou perdoar ou não, é outra questão. Em minha concepção, acho que não. Ninguém quer ser traído”.

Nem o modernismo ou o secularismo gostam da traição. O mais difícil não é o fato de perdoar, mas de continuar o relacionamento. Essa sim, em minha ótica, é a questão mais crucial, difícil e delicada. Como voltar a confiar em alguém que me traiu? Como conviver sem que isso se torne uma relação neurótica, opressora ou sofrida?

Eis a dificuldade de toda a questão: esta é a grande batalha que precisamos travar. Tive a oportunidade de conhecer vários casais que conseguiram com brilhantismo vencer este desafio, pessoas que foram traídas ainda no namoro, mas perdoaram, casando-se e vivendo muito bem há mais de 20 anos. Outras, que foram traídas pelos cônjuges e que também perdoaram, convivendo em harmonia em seus casamentos.

Existem alguns pontos que julgo fundamentais para que isso venha a ser possível:

  1. Assumir e denunciar seu próprio erro. A pessoa que traiu seu cônjuge deve ter a decência de contar a verdade, antes que o outro saiba do fato por outras pessoas.
  2. Reconhecer o erro, pedindo perdão, é uma atitude que torna a continuidade do relacionamento menos traumática. É necessário que haja humildade e sentimento verdadeiro e profundo de dor por ter errado e machucado a outra pessoa.
  3. Mudar de atitude. Avaliar a própria conduta, descobrir que brechas abriu e proteger as demais. Isso também colabora para que tudo se normalize. Cristo nos pede mudança de comportamento e que o nosso velho homem seja morto para que o novo possa viver em nós. Paulo alerta, em Romanos 12:2: “E não sejais conformados com este mundo, mas transformados pela renovação de vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”.

Porém, o mais importante, e necessário, é a obra do Espírito Santo nos corações machucados e feridos, curando, trabalhando, acalmando, depositando confiança e fé em uma vida refeita e transformada, fazendo com que ambos, traído e traidor, experimentem o poder curador do Senhor, em todo o seu ser. Apenas com a ação do Espírito Santo tudo pode ser refeito e reconstruído em nossos relacionamentos. Filipenses 1:6 nos diz: “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo”. Acredite!

Dsa. Maria Regina Guimarães Longo Mendes congrega na IAP em Pq. Itália (Campinas – SP) e atua no Departamento Ministerial – Convenção Paulista e Geral. 

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