Justiça que não satisfaz

Osama morreu, mas como o coração de uma criança que perdeu seus pais no World Trade Center pode ser acalentado por esta notícia?

“Justiça foi feita!” disse o presidente dos EUA, Barack Obama, no pronunciamento histórico em que anunciou ao mundo a morte do terrorista Osama Bin Laden, no dia 1 de maio.  É sempre estranho ouvir esta expressão. A impressão que temos é que algo está errado. Isso porque nem sempre essa frase expressa com clareza e verdade o fato a ser narrado em seguida.

Em situações como essas, surge em nossos corações, pelo menos no coração daqueles que abrigam a palavra de Cristo, um sentimento de dúvida: será que, realmente, a justiça foi feita? Ou então: Quais parâmetros foram utilizados para se fazer justiça? Enfim, talvez estas questões surjam em nós, cristãos, pelo fato da Bíblia mostrar por diversas vezes que nosso senso de justiça é lamentavelmente falho. Que os parâmetros que estabelecemos para discernir entre o que é e o que não é justo costumeiramente são equivocados. Nas palavras do profeta Isaías: “Somos como o impuro — todos nós! Todos os nossos atos de justiça são como trapo imundo (Is 64. 6 NVI). O assassinato de Osama foi caracterizado pelos americanos como um ato de justiça retributiva. Obama afirmou ao mundo que, agora, os Estados Unidos podem dizer às famílias vítimas da rede terrorista al-Qaeda que “a justiça foi feita”.

Não quero entrar no mérito da questão se, de fato, era ou não preciso matá-lo. Se não bastaria prendê-lo e oferecer-lhe um julgamento popular justo.  Não estou defendo Osama ou fazendo um discurso piegas sobre a paz. Tão pouco afirmado que os Estados Unidos da América são os mocinhos da história ou então vítimas indefesas de extremistas religiosos do Islã. A Bíblia nos mostra de maneira muito clara que não existem bonzinhos na história política da humanidade e que, todos, indiscriminadamente, são maus e culpados (Jó 15.14-16, Rm 3.9-23).

No entanto, a justiça humana, por mais que seja validade pela ética e por um julgamento moral por parte da maioria, não é capaz de satisfazer o coração daqueles sofreram a injustiça. “A justiça foi feita” disse Obama, mas esposas que perderam seus maridos no dia 11 de setembro ainda choram à noite de saudade em suas camas. Os lugares na mesa ainda estão vazios e a saudade que aflige o coração persistentemente permanece. Os americanos festejaram a morte de Bin Laden, mas inúmeros deles, naquela mesma noite, remoeram a dor das lembranças e molharam seus travesseiros com lágrimas angustiosas. O vazio no coração provocado pela perda dos amigos, filhos, avós e cônjuges no atentado terrorista de 11 de setembro não pode ser aliviado pela morte de um único terrorista.
Osama morreu, mas como o coração de uma criança que perdeu seus pais no World Trade Center pode ser acalentado por esta notícia? Não há como. A justiça humana, por mais que seja válida e até mesmo aprovada por Deus (de acordo com a interpretação tradicional de Romanos 13), não é capaz de satisfazer o coração humano. No máximo, sacia a sede de vingança ou o rancor guardado no coração daqueles que despejam em um único homem todo o ódio de suas almas.

A justiça humana traz euforia, mas também um sentimento de incompletude. Parece que falta algo. E, de fato, falta, pois a única justiça que satisfaz a alma humana é a de Cristo. Isso porque somente a justiça divina é plenamente justa. A justiça estabelecida pelo homem é sempre regada de interesses escusos, motivações espúrias e ética moralmente falível. Deus não julga imparcialmente, pois “justiça e direito são o fundamento do seu trono” (Sl 89. 14).

Deus é essencialmente justo e somente sua justiça traz paz ao coração humano. Por este motivo, quando as cortinas do Universo se fecharem e a saga humana chegar ao fim, podemos ter certeza de que seremos consolados pela suprema Justiça de Deus, que há de julgar vivos e mortos. Somente neste dia nos satisfaremos. Somente então poderemos afirmar como disse Obama: “A justiça foi feita”. Até lá, permanecemos aqui em um mundo injusto.

Kassio F. P. Lopes é  missionário da IAP em Corumbá (MS).

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