Lágrimas nas alturas

O piloto Andreas Lubitz levou consigo todas as respostas
Andreas Lubitz, um jovem piloto alemão de 27 anos, na terça feira, 24 de março, fez uma manobra absurda, extremamente difícil de se compreender. Silenciosamente, por oito terríveis minutos, fez uma viagem para a morte, levando impiedosamente consigo outros 149 passageiros. Fechou-se para si e para o mundo. Gritos, apelos e lágrimas de angústias não lhe significaram nada. Não houve razão que o fizesse mudar de ideia. Sua ofegante respiração, registrada na famosa “caixa preta”, denunciava o desequilíbrio de uma alma confusa e culposa. Coube à dureza gelada dos Alpes franceses interromper tamanha dor, destroçando brutalmente jovens visionários e velhos sonhadores, abrindo uma cratera de interrogações por toda a terra.  Por quê? Meu Deus, por quê?  Andreas levou consigo todas as respostas.  A única certeza: “nas alturas havia um rastro de lágrimas”!

Tragédias com essa magnitude costumam nos fazer pensar sobre o quanto desconhecemos de nós mesmos. Quem somos, afinal?

“Porque eu não sou o que visto.

Eu sou do jeito que estou!

Não sou também o que eu tenho.

Eu sou mesmo quem eu sou”! (Pedro Bandeira)

Entrar no mundo desconhecido da mente humana nunca foi fácil. Nunca será. Da mente humana, tudo podemos esperar. Com a palavra, Caim, o primogênito de Adão… Primeira geração dos conhecedores do bem e do mal. Mesmo quando Deus pediu que abrisse a porta do coração, escolheu precipitar-se com Abel a bordo de sua ira. No Éden, houve o desastre dos desastres. A queda de todas as quedas. De lá, o jovem Andres Lubitz iniciou sua viagem, com escala para a morte.

Uma produção de Shakespeare na tragédia de Hamlet, ajuda-nos a definir Andres Lubitz: “Ser ou não ser?  Eis a questão.” Será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? Morrer, dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores. É a conclusão que devemos buscar. Morrer,  dormir; dormir, talvez sonhar.

Ele escolheu morrer. Preferiu não enfrentar o mar de obstáculos. Não houve nobreza. Foi trágico. Sim foi trágico, por isso faço depressa o meu lamento, pois sei que o anonimato faz a tragédia virar história, apenas mais uma história. Aos que são de casa, o tempo não apaga, o tempo não afaga. Impossível riscar da festa quem nunca precisou ser convidado. Para os de casa haverá sempre a lembrança: nosso amado derramou lágrimas nas alturas.

Meu lamento vem com a esperança de que todas as interrogações serão respondidas por Cristo, aquele que enxugará de nossos olhos todas as lágrimas.

 

Pr. Ismael Narcizo é responsável pela IAP em Douradina (MS).