Mais casamentos, mais divórcios

A união indissolúvel é bombardeada pelo conceito do casamento “enquanto houver amor”

Instável. Talvez esta seja uma boa palavra para definir os dias em que vivemos. Não conseguimos afirmar categoricamente nada, não somos capazes de explicar as razões e nem os efeitos dos fenômenos que presenciamos em nossa sociedade; não há nada sólido, fixo ou absoluto; tudo está em transição, uma constante mutação.

Por isso, não é de se admirar que a família e a forma de se relacionar estejam também sofrendo profundas alterações.  Os recentes dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística comprovam isso. De acordo com as pesquisas feitas no ano de 2010, reveladas somente agora, o número de divórcios no Brasil aumentou exponencialmente desde 1984. Segundo o Portal G1, “a taxa geral de divórcio no país atingiu seu maior valor, de 1,8 por mil habitantes no ano de 2010 entre pessoas de 20 anos ou mais, segundo o instituto. De acordo com o IBGE, foram registrados no ano passado 243.224 divórcios, por meio de processos judiciais ou escrituras públicas, e as separações totalizaram 67.623 processos ou escrituras”.

A ideia tradicional de casamento, sendo uma instituição sagrada, indissolúvel e monogâmica, está sendo pulverizada da consciência humana e nossa sociedade caminha progressivamente para novos moldes familiares e novas maneiras de se relacionar afetivamente. Os sociólogos que afirmavam ser a família nuclear a base sólida de toda e qualquer sociedade saudável agora se desdobram em elucubrações tentando decifrar o futuro para o qual caminhamos como comunidade humana, se estes fenômenos se perpetuarem na sociedade.

Até mesmo as pesquisas mudaram, tendo que abranger novas classes de pessoas, diferindo as que se casaram apenas uma vez, as que já estão num segundo, terceiro ou quarto casamento – algo difícil de ser visto em tempos passados. A confusão é generalizada. Estranhamente, de acordo com as pesquisas, mesmo com o recorde de divórcios, as pessoas continuam se casando. As pesquisas realizadas no ano passado revelaram que os brasileiros se casaram mais. No entanto, este acréscimo é proporcional ao número dos que se divorciam: casam-se mais da mesma forma que se separam. Isso nos revela que a ideia de casamento permanece na mente das pessoas, só que agora com uma nova reformulação: ele pode acabar a qualquer momento e se isso acontecer – e a maioria já conta com isso – paciência, divorcia-se e busca-se outro cônjuge mais satisfatório – se é que existe casamento realmente satisfatório.

Na contracultura de nossa sociedade leio as palavras de Jesus em Mateus 19.1-9, reprovando taxativamente o divórcio, afirmando que este nunca fora o plano de Deus. A consequência de se rebelar contra a vontade de Deus quanto ao casamento é vista por toda a parte em nossa sociedade: filhos desconcertados, doentes emocional e psicologicamente; homens e mulheres frustrados e infelizes buscando tolamente em novos relacionamentos uma felicidade que não existe; a depressão trucidando a alma de pessoas que não conseguem viver sem seus antigos parceiros; famílias destruídas, lares desfeitos e relacionamentos esfacelados. O que fazer como igreja diante desse cenário desolador? Como agir com aqueles que se divorciam?  O que dizer a este mar de pessoas decepcionadas emocionalmente e frustradas com a vida?

Jesus, quando se encontrou com uma mulher que havia se divorciado pelo menos cinco vezes, não a recriminou, mas fez questão de lembrá-la que seus relacionamentos passados haviam sido tentativas tolas e frustradas de encontrar a verdadeira felicidade (Jo 4.18). Ao invés de estimulá-la a tentar um novo relacionamento ou a se lançar em mais um matrimônio, Jesus lhe oferece uma fonte de felicidade mais intensa e incomparavelmente superior a qualquer relacionamento conjugal: ele mesmo, a fonte inesgotável de prazer e alegria (Jo 4. 13-14). O que podemos fazer, como comunidade de Jesus na terra, é apresentá-lo as pessoas na esperança de que elas permitam ser amadas por Ele, pois somente assim encontrarão um  relacionamento – o único – capaz de lhes preencher completamente a alma e o coração. As pessoas de nossa sociedade não precisam de mais livros de autoajuda, nem de receitas prontas contendo dez passos para casamentos felizes, mas de Jesus Cristo, a fonte suprema do verdadeiro amor e da verdadeira felicidade.

Kassio F. P. Lopes é missionário da IAP em Corumbá (MS).