“O mundo está livre de Kadhafi”

Jesus nos ensinou onde começa, de fato, uma revolução

Na última quinta-feira, 20 de outubro de 2011, o ditador Muammar Kadhafi encontrou-se, como diria o escritor Ariano Suassuna, com “o único mal irremediável”: a morte. O ditador morreu na Líbia após ser alvejado no fogo cruzado entre seus fieis partidários e as tropas leais ao Conselho Nacional de Transição. O dia será lembrado, disse Barack Obama, presidente dos EUA, como o último “grande e doloroso capitulo” da história da líbia.

O corpo do ex-líder foi exibido como troféu. Uma vitrine grotesca tida como triunfo da justiça humana. Não queremos jogar um balde de água fria na “vitória” líbia. De maneira nenhuma. Não há como amenizar as crueldades cometidas por Muammar Kadhafi e seu governo manchado de sangue. Chamá-lo de mártir, como o fez Hugo Chávez, presidente da Venezuela, seria uma insensatez. Kadhafi financiou ataques terroristas, calou com o silêncio da morte aos que se opuseram contra seu regime e como se não bastasse, por último, atacou civis vitimando centenas de cidadãos que hastearam contra seu governo a bandeira da liberdade.

Sim, seu governo abusivo e violento, que perdurou 42 anos chegou ao fim. Ecoa ainda em minha mente as palavras de Obama ao anunciar a morte de Bin Laden: “A justiça foi feita”. Mais uma vez podemos dizer que a verdadeira justiça está longe de ser feita. Tiranos caem, mas o mundo não se torna um lugar melhor. A euforia provocada pela morte de Kadhafi precisa dar lugar a um processo contínuo e progressivo de democratização do país assolado pela guerra civil. Destronar déspotas do poder não traz a garantia de um estado mais justo, igualitário e democrático.

É um começo, sem sombra de duvida. Porém, iludem-se aqueles que depositam suas esperanças de um futuro melhor baseados unicamente na morte de Muammar Kadhafi. A queda de seu regime é apenas um começo. Esperamos que histeria daqueles que hoje celebram o assassinato do ex-líder líbio não dê lugar ao comodismo social e ético no país. Que a população continue ávida por mudanças, por justiça, por liberdade e igualdade. Para que a morte de Kadafhi signifique mais do que um mero assassinato os líbios terão que fazer dela o ponto inicial de uma profunda mudança social. Que os ideais de justiça continuem latentes no coração dos líbios, pois a morte de Kadhafi (ou de qualquer outro tirano) não pode jamais satisfazer o verdadeiro ideal de justiça.

Se assim for ficará comprovado que o ideal de justiça que se nutre é tão medíocre quanto o que se busca. Fazer justiça não é matar um tirano, mas corrigir de alguma forma as injustiças que ele praticou; é amenizar o máximo possível as consequências de anos e anos de opressão e crueldade. Fazer justiça é colocar um ponto final nas injustiças praticadas por seu governo; acabar com as desigualdades promovidas por sua liderança; estancar o ódio e a violência disseminada por seu reinado. Fazer justiça é respeitar a liberdade dos líbios que há tanto foi roubada. Fazer justiça é tornar a Líbia uma nação mais igualitária, humana, adjetivos distantes de serem aplicados a esta nação nos anos do comando de Kadhafi. Fazer justiça é mais do que punir os maus. É um ideal mais nobre, mais sublime. É garantir um futuro melhor às crianças líbias: um futuro de paz e justiça. É devolver os sonhos roubados aos meninos e meninas órfãos. Fazer justiça é restabelecer um governo democrático a um povo proibido de votar e escolher livremente – e tão somente por suas próprias consciências –, aqueles que desejam que os governe. Fazer justiça é devolver o poder ao povo, e não a uns poucos, como por vezes acontece em países que mal saem de uma ditadura para entraram em outra.

“O Mundo está livre de Kadhafi”, disse energicamente um repórter. Sim o mundo está livre de mais um tirano (e até mesmo do Bin Laden, Saddam Hussein, Hitler, Stalin etc), mas poucas mudanças – mudanças realmente significativas – ocorreram em nosso planeta. Isso porque as mais profundas mudanças nunca ocorrem por meio de grandes eventos: a derrocada de um tirano, o fim de uma guerra, a queda de um muro, o cessar fogo entre duas nações. Ainda que estes eventos sejam de fundamental importância não são, a longo prazo, capazes de promover as mudanças necessárias.

O modelo bíblico de uma verdadeira revolução é dentro para fora. Jesus exemplificou isso por diversas vezes. O seu reino, por exemplo, não é externo, pois está dentro de nós. Percebem? Para Jesus a realidade que transforma é antes de tudo interna. As verdadeiras mudanças não são provocadas por fatores externos, mas por uma expansão de consciência que ocorre obviamente na interioridade de cada coração. A verdadeira mudança ocorre na consciência de homens e mulheres. A liberdade não pode ser conquistada sem antes florescer no solo dos corações humanos. A justiça não é estabelecida até que encontre lugar na consciência de cada cidadão. A verdadeira revolução acontece no palco da consciência humana.
Por isso, se essa revolução cívica não ocorrer na consciência de cada líbio a morte de Kadhafi significará apenas a transição de um poder político para outro e não um fato significativo para a transformação de uma nação e de um povo. Nosso ideal de justiça deve ser muito mais nobre. Mas convenhamos, materializar essa ideal em nosso mundo é utópico. No entanto, isso não pode nos impedir de sonhar, pois como afirmou Jesus, só serão fartos de justiça na eternidade aqueles que tiveram fome dela aqui na terra (Mt 5.6).

Kassio F. P. Lopes é missionário da IAP em Corumbá (MS).