Onde está Deus na violência?

Onde está Deus na violência?

A cruz desfaz o conceito de que ele não se importa com nosso sofrimento.

A quinta-feira do dia 7 de abril de 2011 tinha tudo para ser uma manhã como outra qualquer na escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Até que, por volta das 8h30, tudo mudou. Ouvem-se gritos, sons de tiros, pânico e muito tumulto. Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, entrou no colégio portando dois revolveres calibre 38 e, com incrível habilidade e extrema frieza, efetuou muitos disparos contra os alunos. Doze adolescentes morreram e onze ficaram feridos. O massacre só terminou quando o sargento da Polícia Militar, Márcio Alexandre Alves, entrou no local e  alvejou o assassino, imobilizando-o. Uma vez ferido, Wellington se suicidou na escadaria da escola, atirando contra a própria cabeça.
A chacina chocou o Brasil e ganhou repercussão internacional. Todos ficaram perplexos diante de tamanha violência e crueldade. O dia 7 de abril de 2011 ficará cravado em nossas mentes por muito tempo. Será para sempre lembrado como o dia em que os sonhos e o futuro de 12 adolescentes foram brutalmente roubados pela violência. Certamente, nos lembraremos com tristeza desse dia em que o sorriso contagiante de meninos e meninas deu lugar ao pavor e ao medo da morte. Como Peter Pan eles jamais crescerão, pois serão para sempre crianças em nossas lembranças.

Por mais que nos esforcemos, não somos capazes de entender esta tragédia. Os criminalistas, psicólogos, psicanalistas, educadores e cientistas da religião não são capazes de explicar a complexidade da mente de um assassino. “Como alguém pode fazer isso?” perguntam aqueles que desconhecem a capacidade humana de fazer o mal. Parecem não querer acreditar na potencialidade humana para a violência. Todos puderam ver na tela de seus televisores a verdade que a Bíblia afirma categoricamente há séculos: o homem é mau! O massacre do Rio de Janeiro exibiu em uma “vitrine grotesca” toda a violência e crueldade de que o homem é capaz.

Mas, nessa vitrine, pudemos contemplar outro lado.  Tivemos a chance de ver casos de solidariedade e compaixão para com os familiares das vítimas. Diante de tragédias, a empatia se mostra mais evidente, fazendo-nos sentir a dor dos outros. Muitos de nós choramos ao ver o pânico dos alunos, o desespero das crianças ensanguentadas, os gritos de horror, os choros alucinados e a dor que afligia, e ainda aflige a alma dos pais enlutados. Atos como este, de extrema selvageria e violência, mexem profundamente conosco. Bagunçam nossas convicções e violam as leis de nosso status quo. A chacina do Rio de Janeiro põe em desordem a maneira como vemos a nós mesmos e a Deus. Neste momento uma voz, ainda que interna e tímida, começa a susurrar em nossa consciência: Onde está Deus na violência? Como reage a ela? Será que realmente se importa?

Em circunstâncias como esta, são muitos os que enxergam Deus como um espectador impotente, que assiste com extrema frieza e indiferença nossas tragédias e sofrimentos. Por vezes, o imaginamos intocável no céu, enquanto sofremos aqui na terra. “O vemos como estando descansando, ou até mesmo tirando uma soneca em alguma cadeira de balanço celestial, enquanto milhões de pessoas morrem” . Pois é “essa terrível caricatura de Deus que a cruz desfaz em pedaços. Não devemos vê-lo numa cadeira de balanço, mas numa cruz” .

Sim, a única visão capaz de silenciar as vozes pertubardoras, que emergem de nossos corações em meio à violência, é a visão do Cristo crucificado. Diante da cruel violência humana, o único Deus que nos satisfaz é o da cruz.  Pois em última instância, aquele que foi crucificado também enfrentou a violência dos homens. Naquele dia, ele sentiu com mais intensidade as dores do mundo. “A cruz que sustinha o corpo de Jesus, nu e cheio de marcas, expôs toda a violência e injustiça deste mundo” . Assim como nessa chacina, naquele dia no Calvário, Jesus, com o corpo ensanguentado, expôs ao mundo toda a maldade e violência humana. Sim, ele morreu! Sendo Deus, baixou à rude cruz. Sendo  imune ao sofrimento, decidiu sofrer. Sendo impassível, tornou-se passível de dor. Habitando nos céus, desceu à terra. “A cruz re­velou que tipo de mundo nós temos e que tipo de Deus nós temos” . O Deus revelado na Bíblia é parceiro na dor daqueles que sofrem diariamente a violência assassina de um mundo caído.

A cruz nos mostra o amor solidário de Deus por nós ao decidir se identificar com nossas dores. A cruz nos mostra que Deus não é insensivel, apático ou indiferente à dor das pessoas. Ele não está isolado da dor a 704 metros de altura no Corcovado. Pelo contrário, ele está aqui embaixo, com aqueles que choram. Os pais que perderam seus filhos de maneira tão cruel e violenta neste massacre não podem acusá-lo de ser indiferente à dor humana, pois ao se identificar conosco, ele, o Pai Eterno, também viu seu filho, Jesus, morrendo de forma desumana e atroz no Calvário. Por isso, podemos afirmar categoricamente que o coração de Deus bate na mesma cadência daqueles que choram agora pela morte de seus filhos. Sendo assim, eu concordo com  John Stott quando diz:

“Eu […] jamais poderia crer em Deus, se não fosse pela cruz. No mundo real da dor, como se pode adorar um Deus que seja imune a ela? […] É esse o Deus para mim! Ele deixou de lado a sua imunidade à dor. Ele entrou em nosso mundo de carne e sangue, lágrimas e morte. Ele sofreu por nós. Nossos sofrimentos tornam-se mais manejáveis à luz dos seus. Ainda há um ponto de interrogação contra o sofrimento humano, mas em cima dele podemos estampar outra marca, a cruz, que simboliza o sofrimento divino. A cruz de Cristo. . . é a única autojustificação de Deus em um mundo como o nosso” .

A resposta para os questionamentos feitos sobre Deus na violência é a cruz. Que os enlutados por esta tragédia recebam o consolo do único Deus capaz de entendê-los e confortá-los: o Deus do Calvário.
Ao Jesus crucificado seja a glória!

Kassio F. P. Lopes é missionário da IAP em Corumbá (MS).

Philip Yancey, Decepcionados com Deus, Ed. Mundo Cristão, 1997, p. 154.

John Stott, A Cruz de Cristo, Ed. Vida, 2006, p. 148.

Idem.

Yancey (1997:154)

Idem.

Stott (2006:151).

Realengo, um chamado à vigilância

Não precisamos nos arriscar à queda, sendo que podemos evitá-la

Quinta-feira, 7 de abril de 2011, parecia ser mais um dia normal para os funcionários e alunos da escola Tasso da Silveira, em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro. É possível imaginarmos os alunos chegando à escola, uns no horário, outros atrasados, portando suas mochilas e com expectativas para o restante do dia. Mas, infelizmente, aquele dia, não seria comum, como os demais. Essa escola se tornaria alvo da mídia nacional e internacional e 12 adolescentes, ao contrário do que todos imaginavam, não retornariam aos seus lares. Naquele dia, o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira, entraria na escola, sob o pretexto de ministrar uma palestra, e dispararia cerca de 50 vezes contra as crianças, para depois se suicidar.

O resultado desse acontecimento é visível nos olhos lacrimejantes dos parentes das vítimas. Doze sonhos de um futuro promissor foram ceifados pelo poder destrutivo de duas armas de fogo. O mundo lamentou a tragédia. Para quem perdeu um filho, é difícil retomar a caminhada. O sangue dos inocentes começou a ser removido das paredes e do chão da escola, mas as tristes lembranças assombrarão, por muito tempo, os que convivem naquele espaço. E agora, o que fazer? À polícia nada mais resta a não ser investigar o caso, na tentativa de encontrar mais envolvidos no crime ou, simplesmente, dar um parecer do caso à população. Às crianças que presenciaram o fato, será necessário apoio psicológico.

A tragédia ocorrida em Realengo despertou as autoridades a atitudes preventivas. Onde está a falha culminante em tragédias dessa natureza? A Ordem dos Advogados do Brasil defendeu neste domingo (10 de abril) a retomada da discussão sobre o desarmamento no País. Para o presidente da OAB do Rio de Janeiro, Wadih Damous, o massacre deve servir como reflexão para os riscos que a sociedade corre com o livre acesso de cidadãos a armas de fogo. Por sua vez, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, disse que está fazendo um levantamento sobre a segurança das escolas municipais, depois do massacre ocorrido na escola pública do Rio de Janeiro. A lógica dessas intervenções é perceptível no ditado popular: “é melhor prevenir do que remediar”.

No mundo espiritual, a prevenção, que tem o mesmo sentido de vigilância, é imprescindível. Estar de sobreaviso é o conselho de Cristo: Vigiai, pois, a todo tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que têm de suceder e estar em pé na presença do Filho do Homem (Lc 21:36). Todos nós estamos sujeitos aos imprevistos negativos da vida. As tentações sempre baterão à porta do nosso coração na tentativa de disparar seu veneno mortal e desestabilizar a nossa fé. Por isso, é necessário cuidado! O apóstolo Paulo, homem experimentado em situações adversas da vida cristã, escreveu, inspirado pelo Espírito Santo: Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia (1 Co 10:12). Não precisamos nos arriscar à queda, sendo que podemos evitá-la. Façamos isso para a glória de Cristo!

Mis. Jailton Sousa Silva é colaborador do Departamento de Educação Cristã (DEC) da Igreja Adventista da Promessa.

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