Tragédia na primeira hora do Ano-Novo

O que fazer quando um momento feliz repentinamente se transforma em choro

Era a primeira hora do Ano-Novo na Grande São Paulo. No retorno da festa de Reveillon, um esposo segue feliz da vida, fazendo planos ao lado de sua esposa para a nova temporada que se inicia. No ventre da mulher amada, uma criança que é a representação mais forte e segura de sua esperança de que, 2012 tem tudo para ser um ano maravilhoso. De repente, um barulho… Ocorre uma batida. Ele atravessa um farol vermelho e um carro, dirigido por um homem que vinha em sentido contrário, se choca contra o seu. Com o impacto da colisão, sua esposa, a mulher amada, é sacada para fora do veículo. Ela cai ao solo já sem vida. O momento que era de alegria e expectativas passa a ser de sofrimento e choro.

Mas ainda há uma esperança, pois o feto, um menininho que sua esposa esperava, é levado com vida para o hospital. No entanto, poucas horas depois, também este vem a falecer. Tudo desmorona em poucos minutos para aquele homem. O cenário é de terrível tristeza. Mas, como se não bastasse, aqueles que acompanham a descrição dessa catástrofe pela TV, ouvem a apresentadora do Jornal Nacional, Patrícia Poeta, informar que a cena é mais horripilante ainda: aquele homem já havia perdido outra esposa e outro filho, também em um acidente de carro.

Até a hora em que estas informações foram dadas pelo Jornal e pelo site G1, não sabíamos o nome deste homem. É bem provável que nenhum de nós saiba também o que está se passando com ele, pois, embora como ele, muitos esposos já perderam a mulher e filhos em acidentes, é difícil identificar quem já passou por isso duas vezes na vida.  O que poderia ser dito para este homem nesta hora? Talvez uma opção fosse: Levante a cabeça, um novo ano virá e com ele uma nova realidade. Mas pareceria ledo engano, pois o ano só começou, e já se iniciou com essa terrível notícia. Alguém poderia procurá-lo com o fim de confortá-lo e dizer-lhe: Bola pra frente. Vamos recomeçar. Mas seria difícil de suportar aquele esposo dizer em réplica, com lágrimas nos olhos e voz embargada: Era isso que eu estava fazendo, mas novamente, não foi possível.

A justificativa de que tudo ocorre com uma finalidade parece sem força de argumentação, pois aquele homem já havia passado por isso, e pelo fato de ter partido para outra relação conjugal e familiar depois do primeiro desmoronamento, demonstrara que tinha aprendido com a catástrofe anterior. A repetição dessa terribilidade parece mesmo sem explicação. Não há palavras que possam ser ditas a ele nessa hora.  A catástrofe se torna ainda mais dolorida para aquele homem, ao saber que o motorista que dirigia o carro que colidiu com o seu já havia se envolvido em outros dois acidentes, em 2008 e 2010. Se não fosse negligência de ambas as partes, a esposa e o filho do homem sem nome estariam agora vivos. Mas, temos aí mais uma vez o problema da conjunção SE. Ao que parece, novamente a justiça falhou. E mais uma vez, começamos o ano com notícias que nos fazem manter os pés no chão e abrir mão de todos os paradoxos e irrealidades refletidas e repassadas para nós em épocas de Reveillon.

Para nós, há uma lição que pode nessa hora ser mensurada e aplicada em nossa vida: comecemos o ano objetivando vivermos a melhor vida que for possível nesta terra, mas não será a mudança de calendário que nos trará a felicidade real, pois as pessoas infelizmente continuarão morrendo – como a esposa e o filhinho do homem sem nome – ou “ao menos” sofrendo – como ele próprio.

Estas coisas só tendem a aumentar a nossa ansiedade de ver Jesus Cristo voltar para acabar com a injustiça e a morte, pois apesar da aparente renovação da esperança de que o ano novo será melhor, a verdade é que, como escreveu José de Alencar mui acertadamente, Tudo passa sobre a terra. A igreja deve ansiar por uma realidade na qual nada mais passará, pois tudo será eterno. A Escritura nos assegura que este momento chegará.

Mas, e quanto ao esposo viúvo pela segunda vez, que podemos fazer por ele? Como ajudá-lo? A única coisa possível e viável que nos é possível é interceder. Intercedamos por ele, pois se nos faltam palavras diante de tamanha dor sentida por aquele esposo; se os seus familiares e amigos procuram e não acham formas de dirigir-lhe a fala, da parte de Deus, temos certeza que o Senhor sabe muito bem como lidar com essa situação. Aquilo que Deus fez na vida de Jó diante da colossal catástrofe enfrentada por esse patriarca, nos assegura que o Criador pode fazer dessa terribilidade, uma nova realidade. Mediante o agir de Deus, o homem sem nome, e praticamente sem vida nesta hora – apesar de ter sobrevivido – poderá lá na frente, mostrar para nós que quando não houve palavras que pudessem ajudá-lo, não lhe faltou a companhia daquele que, sem palavras, esteve ao seu lado e soube muito bem confortá-lo e levantá-lo mais uma vez. Ademais, o homem sem nome poderia ser mais uma das vítimas fatais nessa madrugada trágica. Se Deus poupou-lhe a vida, deve ser porque há algo ainda para ele viver na face desta terra. Deve ser porque Deus o conhece pelo nome, e tem fitado os olhos nele, apesar dos fatos.

Se você também querido, começou 2012 ainda com vida, apesar de mil estar caindo a teu lado e dez mil a tua direita (Sl. 91.7), deve ser porque há algo muito especial que Deus ainda quer fazer em tua vida e por meio da tua vida. Verdade é que as catástrofes continuam acontecendo, nos fazendo continuar com os pés no chão. Mas verdade é também que nós continuamos com vida, continuamos com nossos pés sobre a terra. E se é assim, vivamos então da melhor maneira que pudermos no novo ano. 2012 começou e os desafios para nós e para a igreja de Cristo são enormes. Sigamos firmes até a hora em que o relógio de Deus determinará que chegou o grande dia. Aí então, todos nós seremos conhecidos pelo nome, e nada mais passará, nem no céu, e nem na nova terra. Não haverá mais ano novo, pois em Cristo, viveremos um eterno presente contínuo. Aleluias!

Pr. Marcio David é superintendente da Convenção Ceará