Uma sociedade sem tempo?

“Não tenho tempo para você” pode ser uma forma de comunicar: “você não é prioridade para mim”

Há um comercial de TV que mostra dois personagens jovens, com barba e cabelos crescidos, dialogando sobre o isolamento que sofrem as pessoas que não têm acesso a um determinado pacote de TV a cabo, internet e outros serviços de comunicação. O detalhe, só posteriormente revelado, é que os personagens estão numa pequena ilha onde, além deles, só há um monitor que os “conecta” com o mundo.

A imagem é surreal, o diálogo é curioso, mas aquele comercial reflete a triste realidade em que vivem muitas pessoas na atualidade: “ligadas” a milhares ou até milhões de outras, por meio de recursos tecnológicos, mas isoladas, sozinhas, com seus pensamentos, afetos e problemas.

Como podemos estar tão próximos, tão juntos e, ao mesmo tempo, tão distantes uns dos outros?
Ouvimos dizer que a mesma tecnologia que nos aproxima é a que nos distancia. Não precisamos ser tão pragmáticos assim, pois sempre podemos usar esses recursos a nosso favor, dando um telefonema ou mandando um e-mail, o que nem sempre fazemos.

Apesar de a tecnologia ter vindo para facilitar a nossa vida, e nos proporcionar mais tempo livre, ironicamente gastamos o tempo que temos com as máquinas (TV, telefone, computador etc.) e não com as pessoas. Então, quando alguém solicita nossa atenção, dizemos que não temos tempo.

No entanto, quando não temos escolha, o tempo acaba aparecendo, pois deixamos tudo para ir a um velório, para levar um filho doente ao médico, ir ao hospital quando a pressão sobe ou sofremos algum acidente. Ao arranjarmos tempo nessas situações, descobrimos que a vida, as atividades, a casa, o trabalho, tudo prossegue a despeito da nossa ausência. Porque, então, não conseguimos encontrar tempo para estar com as pessoas?

Talvez porque estar com as pessoas signifique dar a elas bem mais que o nosso tempo: é dar também nossos ouvidos, nossa atenção, é envolver-se com elas e com seus problemas. E isso, certamente, nos assusta.

Por esta razão, muitas pessoas sentem solidão dentro de seu grupo de amigos; jovens sentem solidão dentro de suas escolas; crentes sentem solidão dentro de suas igrejas; filhos sentem solidão dentro de suas famílias; cônjuges sentem solidão dentro de seus casamentos.

Solidão é mais do que não ter alguém por perto, é o sentimento de não ter com quem contar. Por mais que não pareça, estamos fazendo muito quando dedicamos um pouquinho de nosso tempo escutando o outro com interesse e atenção. Mesmo que não possamos dar a solução do problema, o mero falar traz alívio imediato para quem sofre ou se sente só.

Quando nos dispomos a parar por um instante o que estamos fazendo para darmos um telefonema, fazermos uma visita, ou simplesmente ouvirmos alguém, estamos transmitindo uma mensagem profunda: “Você é importante para mim”. E, com certeza, não há nada mais terapêutico do que esta mensagem.

Romi Campos Schneider de Aquino, psicóloga, é diaconisa na IAP em Curitiba (PR).

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