Ainda estamos fora de casa

Uma análise de 2 Coríntios 5:8

 

Em 2 Coríntios 5:8 Paulo expressa sua preferência em “estar ausente do corpo e habitar com o Senhor”. Será esta uma referência ao estado intermediário do cristão, pós-morte? Será que Paulo está ensinando que, imediatamente após a morte, o cristão vai viver na presença do Senhor num estado incorpóreo, isto é, “em espírito”? Paulo estaria, então, desejando a morte para poder ficar mais perto do Senhor? Entendemos que a respostas para estas perguntas todas é não.

 

Paulo, neste mesmo capítulo, compara a morte com um “despir”. Ele compara o corpo mortal do ser humano com uma tenda, e diz que temos um edifício da parte de Deus, uma casa eterna no céu, que será o nosso novo corpo transformado e imortal. Enquanto estamos nesta tenda atual, isto é, neste corpo mortal, gememos, querendo ser revestidos da nossa habitação celestial: o nosso corpo imortal. A garantia que temos de que isso ocorrerá é o Espírito Santo (v. 5). Todavia, antes que a nossa tenda terrena seja revestida da nossa futura habitação celestial, precisaremos nos despir, isto é, morrer. A morte é o despimento. Quando morremos, despimo-nos e ficamos aguardando, a nossa nova roupa: o nosso novo corpo transformado. Contudo, Paulo diz que não quer ser despido (v. 4). Ele deseja alcançar a transformação do corpo, sem precisar morrer. Somente os justos que estiverem vivos, na ocasião do retorno de Jesus, não morrerão. O próprio Paulo fala sobre eles, em duas oportunidades (1 Co 15:51-52; 1 Ts 4:15-17). Ele deseja ser uma destas pessoas! Quer ser transformado sem ter de experimentar a morte.

 

Aqui esta o “x” da questão. Se a interpretação cristã tradicional do v. 8 – que diz que o cristão após a morte vai viver com o Senhor – está correta, Paulo não estaria sendo contraditório em suas aspirações dentro do capítulo? Como ele pôde dizer no v. 4 que “geme e se angustia” por não desejar a morte, e no v.8 dizer que quer a morte para “estar com o Senhor”? Numa afirmação ele tem uma visão totalmente negativa da morte, e, na próxima, outra totalmente positiva. Há algo errado nisso, concorda? O apóstolo não pode não querer a morte numa frase, e na outra desejá-la! Quão contraditório Paulo estaria sendo! Será, o apóstolo aos gentios, tão volúvel? É óbvio que não. O que está equivocada, na verdade, é a interpretação cristã tradicional deste versículo. Vamos retomar, então, o contexto do texto, e harmonizar, de maneira coerente, ambas as descrições.

 

Paulo fala de uma “temporária habitação terrena” (v. 1), como sinônimo de nossa presente vida no corpo mortal e corruptível. Depois, fala de uma “casa eterna nos céus” (v.2), como sinônimo do novo corpo que receberemos por ocasião da ressurreição, que acontecerá com a volta de Jesus. Por ocasião da ressurreição, o nosso corpo mortal será absorvido pela vida (v. 4). E, depois que recebermos este novo corpo, seremos apresentados ao Senhor (2 Co 4:14), ou seremos levados “a “presença dele” (NTLH). O próprio Paulo, noutra carta, afirmou que depois da ressurreição: “estaremos para sempre com o Senhor” (1 Ts 4:17). Então grave isso: quando formos revestidos com a nossa “habitação celestial”, por ocasião da ressurreição, seremos colocados ao lado do Senhor e estaremos para sempre com ele.

 

Observe que no v. 6, Paulo afirma que, enquanto “habitamos neste corpo” estamos “ausentes do Senhor”. Mas, em que sentido, estamos ausentes do Senhor? Afinal de contas, mesmo na presente existência, contamos com a presença de Deus. Na verdade, o que Paulo está dizendo é que ainda não somos tudo o que deveríamos ser; ainda não recebemos aquilo que “temos” da parte de Deus, aquilo que já pertence a nós em razão do que Cristo fez (v.5), e, por não termos recebido o que nos está garantido no futuro, ainda não desfrutamos de maneira total a presença de Deus, fato que acontecerá quando formos “revestidos de nossa habitação celestial”. Por enquanto, em algum sentido, o apóstolo entende que estamos “ausentes do Senhor” (v.6). A palavra grega traduzida em nossas Bíblias por “ausente” (v. 6) é ekdemeo e era usada para falar de alguém que saía de seu país, ia para o exterior, viajava para longe de casa; de alguém que estava em um lugar que não era a sua casa. É esta nossa condição hoje. Como ainda não fomos transformados, estamos ausentes da habitação proposta por Deus, e, por conseguinte, “ausentes” dele em plenitude. A razão: “habitamos neste corpo”, isto é, no corpo terreno (v. 6). A palavra “habitamos” é a tradução do grego endemeo, que significa “estar em seu próprio país”, ou “estar em casa” ou “estar presente em algum lugar”. Ou seja, Paulo está dizendo que, enquanto a nossa casa for a “temporária habitação terrena” não podemos estar na nossa futura casa, a “habitação celestial”, com o Senhor. A Bíblia de Jerusalém traduz assim o texto em estudo: enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mansão, longe do Senhor.

 

Por esta razão Paulo deseja de maneira tão intensa ser revestido da “habitação celestial” (v. 2). E quer que isso ocorra logo. Deseja receber o novo corpo sem experimentar a morte (v.3). Quer ser encontrado “vestido” (isto é, vivo) quando este dia chegar. O apóstolo se angustia com a possibilidade contrária, isto é, morrer antes de ser revestido (v.4). O desejo de Paulo, então, no v. 8 não é pela morte. Ele não contraria o que diz no v.4. Na verdade, Paulo está reforçando o pedido dos vs. 2-3. Paulo está expressando seu desejo de “abandonar a mansão deste corpo para ir morar junto do Senhor” (v.8, BJ). Se enquanto estamos neste corpo, estamos fora da nossa mansão e longe do Senhor (v.6), ele quer então, o quanto antes, poder abandonar a “mansão” deste corpo para poder estar junto com o Senhor!

 

Esta ideia é reforçada estudando as palavras gregas do v. 8. Quando Paulo fala de desejar estar “ausente do corpo”, advinha? Ele usa a palavra grega ekdemeo, que, como vimos, era usada para falar de alguém que saía de seu país, ia para o exterior, viajava para longe de casa; de alguém que estava em um lugar que não era a sua casa. Paulo entende que o estado atual do seu corpo não é o final, e que existe algo melhor! Quando ele fala de “habitar com o Senhor”, usa a palavra grega endemeo, que significa “estar em seu próprio país”, ou “estar em casa”. Entendeu? “Estar em casa” para Paulo e estar com a futura “habitação celestial”, junto com o Senhor. Ele faz um contraste com o que havia afirmado no v.6. Vamos juntar os dois (2 Co 5:6,8) e ver como fica?

 

Portanto, temos sempre confiança e sabemos que, enquanto estamos [endemeo] no corpo [na “temporária habitação terrena”], estamos longe [ekdemeo] do Senhor [nossa futura casa, a “habitação celestial” com o Senhor no corpo ressurreto]. Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes [ekdemeo] do corpo [a “temporária habitação terrena”], e habitar [endemeo] com o Senhor [nossa futura casa, a “habitação celestial” com o Senhor no corpo ressurreto].

 

Paulo deseja, desta forma, que Cristo volte logo, para que ele receba o corpo glorioso. Ele não está tratando, desta forma, de um estado desincorporado. Nem está falando sobre o estado intermediário do ser humano depois da morte. Simplesmente, esta expressando seu desejo de estar vivo na volta de Jesus e receber um corpo transformado, e poder ficar para sempre junto do Senhor. Para Paulo isto não foi possível. Mas ele, assim como aqueles que já morreram, aguarda a promessa: se for destruída a temporária habitação terrena em que vivemos, temos da parte de Deus um edifício, uma casa eterna nos céus, não construída por mãos humanas (2 Co 5:1-2, NVI). Um dia Paulo, e todos os que morrerão em Cristo, ressuscitarão para verem cumprida, esta promessa! Receberão o corpo glorioso, e aquilo que é mortal será absorvido pela vida!

 

 

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