Sábado, um presente para a humanidade

“Seis dias da semana procuramos dominar o mundo, no sétimo dia nós tentamos dominar o eu”

 

As agências de viagens, ou colônias de férias não sabem, mas o homem foi criado para o descanso. Ao contrário do que insistimos em imaginar, Deus não criou o homem para o trabalho; o criou primeiro para o descanso, e só depois para o trabalho. A criação é tomada como ponto de partida para essa afirmação uma vez que Deus, ao criar céus e terra (Gn 1.1), após haver dito: “haja luz”, decretou a luz como Dia, e as trevas, Noite. E foi então tarde e manhã, o primeiro dia (Gn 1.5).

O relato segue com a mesma descrição, sempre “tarde e manhã” na conclusão de cada dia (Gn 1.5; 1.8; 1.13; 1.19; 1.23; 1.31). Ainda no sexto dia, antes de Deus decretar o sétimo dia, após criar o homem, ele ordena: “enchei e sujeitai a terra” (Gn 1.28). Porém, antes do trabalho do homem, Deus havia concluído sua obra, então, “Abençoou Deus o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de toda a obra que realizara na criação.” (Gn 2.3 NVI)

Deus descansa, abençoa e santifica. Mas Deus se cansa? Isaías afirma que não, Deus não se cansa! (Is 40.28). Então, qual é de fato o sentido de “descansou Deus no sétimo dia”? Gerard Von Groningen afirma que o “termo traduzido por ‘descansou’ traz o sentido de que Ele ‘sabateo’”, isto é, que Ele celebrou o término do que havia criado, tendo declarado sua obra como acabada, completa. Ele escolheu aquele dia como um Dia Santo, no qual desfrutou do que era bom, perfeito e completo.”

É preciso entender, então, este tempo, uma vez que a criação é realizada no tempo. O que Deus quer de fato ensinar ao homem com o sábado é que o homem não é dono do tempo. Em outras palavras, o tempo, como parte da criação de Deus (Gn 1.1-5), não está no poder do homem; Deus o controla, e o faz de tal forma que separa, abençoa e santifica um dia em especial. Esse controle do tempo é estabelecido como um padrão na criação. No sétimo dia, o homem deveria cessar, parar e se preparar para um momento de encontro com Deus. Em outras palavras, só é ser humano à imagem e semelhança de Deus aquele que se expõe a esse tempo, o sábado do Senhor.

O sábado é o dia de guardar as ferramentas, as pastas e os computadores; é o dia de celebração, é o dia da festa da criação, como bem afirmou Heschel: “O significado do Schabat é, antes, o de celebrar o tempo, e não o espaço. Seis dias da semana vivemos sob a tirania das coisas do espaço; no Schabat tentamos nos tornar harmônicos com a santidade do tempo.” Deus santificou o dia de sábado e desfrutar dessa santidade exige um total abandono do comércio, da ganância, e dizer adeus ao trabalho, pois o mundo já foi criado. Afirma Heschel: “Seis dias da semana procuramos dominar o mundo, no sétimo dia nós tentamos dominar o eu.” O sábado é um presente para humanidade porque é dedicado à vida; é um Deus amoroso que nos mostra de forma prática que não somos “animais de carga”, mas homens e mulheres criados à imagem e semelhança de Deus, portanto, não precisamos apenas descansar o corpo, mas festejar a obra realizada, celebrar a vida sustentada.

Cessar o trabalho é parar no tempo para encontrar um outro tempo, não terreno, não humano, mas o tempo da eternidade posto como desejo profundo dentro de nós (Ec 3.11). Com isso, Deus quer nos levar a entender que, durante seis dias, somos sufocados pelos nossos afazeres, mas o sétimo dia é quando saímos do que é terreno para adentrarmos no que é eterno.

É evidente que Deus cessou a obra dele, pois tudo que deveria estar criado, assim estava. Mas nós, homens e mulheres de hoje, temos uma obra que aparentemente não cessa, semana após semana insistimos em trabalhar como máquinas. Então o que o Senhor nos quer ensinar com o sábado? Acredito que seja nos levar na direção do Salmo 23. Entender o cuidado de Deus é tomar consciência de que nada sentimos falta. Ou seja, trabalhamos de domingo a sexta-feira, mas no sétimo dia, no sábado do Senhor, nós damos nosso trabalho como encerrado, nossa obra cessa. Quando fazemos isso, estamos afirmando: “o Senhor é o meu pastor, e de nada eu sinto falta”, ou seja, no Schabat, no sábado do Senhor, devemos repousar como se toda a nossa obra estivesse sido completada, até mesmo tirando o nosso pensamento do trabalho, e nos entregando nas mãos de um Deus que tem cuidado de nós.

Quando nos desviamos de guardar o sábado do Senhor, condenamo-nos a uma vida egoísta e prepotente, fugimos da criação de Deus, queremos nos tornar independentes, mas quando praticamos o sábado do Senhor, temos um vislumbre do que seja o descanso eterno (Hb 4). Quando, pela fé,  enxergamos isso, trabalharemos seis dias, mas teremos um coração inflamado pelo descanso e a celebração no Sábado, o dia do Senhor. Que nos mantenhamos firmes experimentando aqui na terra o que há de ser o Sábado eterno, o descanso da eternidade. Este é o maior presente para a humanidade: o Sábado do Senhor.

 

Referências

A Bíblia Anotada. Primeira edição. São Paulo, Mundo Cristão.1994

A Torá. Primeira Edição, São Paulo, Abba Press e SBIA. 2010

A Torá, Lei de Moisés. São Paulo, Editora Sêfer. 2001

BUNIM, Irving M. . A Ética do Sinai. São Paulo, Editora Sêfer. 1998

CARSON, D.A. Do Sabbath ao Dia do Senhor. São Paulo, Cultura Cristã. 2006

GARCIA, Paulo Roberto. Sábado: A mensagem de Mateus e a Contribuição Judaica. São Paulo, Fonte Editorial. 2010

GORODOVITS e FRIDLIN. Bíblia Hebraica. São Paulo, Editora Sêfer. 2006

GRONINGEN, Gerard Van. São Paulo, Fides Reformata 3/2 1998 p.149-167

HESCHEL, Abraham Joshua. O Schabat, seu significado para o homem moderno. São Paulo, Perspectiva. 2009

MEHL, Ron. A Ternura dos Dez Mandamentos. São Paulo, Editora Quadrangular. 2006

PORTELA, Solano. A Lei de Deus Hoje. São Paulo, Editora Os Puritanos. 2000

REIFLER, Hans Ulrich. A Ética dos Dez Mandamentos. São Paulo, Vida Nova. 2009

 

 

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